22 de dezembro de 2016

Lar




Eu desisti de me acomodar. Se sou como mola, que bem eu faço aqui espremido? Quero repousar sossegado com gaivotas nos jardins que lá são cultivados. De nada vale a permanência no mundo. Minha cabeça sempre esteve tão cheia de coisas e meu bolso nunca esteve tão vazio. Creio que retornarei torto, vesgo, manco. Se é que retornarei! Mas se um dia eu retornar, e diferente estiver, me dê um abraço e me jogue nos ombros. Só a gente sabe como é bom estar de volta.

Eu escrevo

Eu escrevo.
Eu bato no peito, eu subo escadas,
eu pairo ligeiro,
eu cato as sobras,
o provador da derrota.

Eu lhe arranco a ternura,
sobre a penumbra maior.

E te aborreço aos montes,
abaixo horizontes.
Te beijo a boca,
te enfeito toda.

A alma conforta
um abraço gentil.
Que duzentas vezes partiu,
e nunca mais voltou.

E olho os cruzeiros festeiros,
um aceno do mar
do amigo esquecido.

Mas eu te estico,
te elevo,
e te espero,
puro aflito,
e te encontro escondido.
E nas tardes te alegro.
E andas comigo,
no remexido passado,
nos dias, afinco,
até as noites banais.
Eu te levo nos braços,
e caio sentado
sobre palmas,
e as puxo,
e as toco,
e as bato.
Eu escrevo.

30 de novembro de 2016

Vaso de planta

O vaso do jardim era enorme. Era um funil escuro e ao mesmo tempo um clarão no novelo, incendiando aos poucos os fios querosene, enroscados no corpo grotesco de plástico reciclado. Era também um poço, e lá dentro caía terra assim como dali terra também caía. O vaso de planta, em mês qualquer como novembro, ficava no jardim, entre aquelas crianças arruaceiras descamadas, enterradas das raízes ao dorso verde de suas folhas sinistras, como dedos de bruxa apontados para um sótão. O vaso de planta, se me permite excluir de sua memória o que lhe encantava quando pequeno, de nada doce ou muito banal tinha. Era enormemente deselegante, perdia o equilíbrio constantemente e sujava todo o assoalho. Dos buracos, pingos se tornavam um aguaceiro sem fim. Toda vida sucumbia ingenuamente ao seus suaves alardes e flertes agressivos. Sequer os animais da terra ou o sol do meio-dia, sequer as plantas sabidas. Nenhuma vida se legitimava. 

Foi quando, em um dia desses de novembro, me perguntaram o que eu já sabia ser uma boa pergunta: pra que serve um vaso no jardim? 

Resposta: para que suba aos céus como querido de Deus, e não peque entre seus com o nariz acima do queixo e o queixo acima de todos, mas para que fique com os pés fincados e a cabeça acima dos demais. Para que olhem e vejam, e toquem, o vaso, as plantas no vaso, a terra molhada. Para aproximar o além. 

27 de novembro de 2016

Manifesto de dias vazios [1/3]

Eu acordo.
Eu levanto.
Eu saio.
Dias, mais que as manhãs, são como as lacunas infinitamente mais brilhantes, portanto, dias são assim mesmo: comparáveis. 
Dias iguais, gêmeos. Partidos ou não, escarrados, caminhantes. Em alguma estradinha, se encontram. Todos os dias da sua vida se encontrarão um dia. E, finalmente. 

Disseram que eu ficaria só. Estavam todos errados.
Eu estive sim, em algum momento, a sós.
Mas percebi, sob o leigo caminhar, que o amor próprio, tão alardeado, não me deixava quieto.
Eu subi nas mesas do bordel e arregacei as mangas nas obras. Fiz da camaradagem uma insígnia fincada no peito. Eu já fui jovem um dia e já quis o mais brilhante. Todos os dias da sua vida se encontrarão um dia. Do mais ordinário dia ao mais contemplativo, caminhando ou não nos salões ocos da mente inquieta que observa o desabrochar frouxo da vida ou o deboche carnavalesco da despedida. Quem impera em mim é uma fome sem controle pelo artista da obra, pela tinta fresca da gravura, pela confidência trocada entre amantes, pela dança do pavio. O que impera em mim, desde uma infância infeliz, não é o faz-de-conta, como disseram uma vez. Em meus devaneios, na minha tão conhecida busca pela felicidade, não sonhava com a coisa externa. E, portanto, sendo capaz internamente, minha tão fabulosa busca era minha, de mais ninguém.

Julgaram-me errado.

E outra!

Quando te encontrei, as vozes sumiram. Eu já não vivia lá naquela coisa de ninguém, no mundo sem dono de minha autoria. Foi quando consegui, pela primeira vez na vida, viver o presente. Poetas e filósofos falaram sobre isso. Escritores de auto-ajuda enriqueceram falando sobre isso. Dizem residir em você, como envelope nunca aberto com o mesmo remetente e destinatário. Mora nas pessoas. Mora dentro de todo mundo, mas nunca dentro da mesma pessoa. Eu pude amar na mágoa, no ódio, com lama nos olhos que não me permitiram ver, mas sentir. Quando você sente, por mais vazio que seja, estremece a alma frouxa dentro de você. Para a alma, todos os espaços são largos demais. Então, quando alguém te oferecer um abraço, aceite.

Eu tenho medo do escuro ainda.
E nunca desligo a luz da cozinha.
Quando me chamam, eu costumo ouvir.
Mas tenho medo mesmo é de ficar sozinho.
De não te ouvir mais.
E, claro, do escuro.

11 de novembro de 2016

11/11



Saiu dos laços encantos, desatando bruscos pedidos. Escorro corpulento, alargo o sorriso ligeiro, os chuviscos tortos do meu pedágio, e acenos cruzados distribuo sem arredar. E eu, visivelmente impaciente, no balcão, atento.

E ela some. 

Feita luz celestial que paira, toda coroa de rei, sobre nós.

6 de novembro de 2016

Estábulo clandestino

Eu fecho tudo. Conversas fiadas, gracejos tolos, portas encostadas e guilhotinas. E sento vil com acentos e pontos finais. Eu abro tudo também. Portões imperiais, uma flor despetalada e botões de blusa de cetim. Eu subo os muros da escola e deixo meus pais preocupados. Eu escancaro na cara da modéstia um sorriso palhaço em um instante amargo da vida. Para que não reste dúvida eu sou eu mesmo. O próprio. Não me perturbe.

Estou dividido.

Há em uma, três ou cinco vidas.
Estou perplexo com quem me prometeu escolha. Não tive. Não tive certezas. Só rabiscos, ocos e lentos. Gravíssimos socorros, ecos afogados. E saltei por essas agonias, preenchendo os buracos que lá surgiam, alegremente. Tolo eu fui. E cheio de vida.

Outra vida me pertence. Essa coisa que não é minha. Eu busquei nos lábios de moça prometida, nos adultérios da prosa, uma garantia. Só dúvida. Só dúvida. E dívida.

Outra e mais outra até não sobrar nenhuma das vidas que vivi.
Sabe quem eu sou? Mil e duzentos e vinte e sete constelações em apenas duas tonalidades. Três mil gravuras ensolaradas na cortina da sala. Um castiçal azul-marinho sem velas. Uma fileira de Marias. Eu sou o caos que o vento carrega nas erupções noturnas, eu sou o distúrbio no fluxo. Eu a faço cair e levantar sem tocar o chão, sem lhe dar as mãos. Eu sou o peso nas costas e as alças do mundo. Eu, o vasto e miúdo.

Estou contente agora. Ser algo me foi ordenado. Se tenho algum conselho? Nada de bulas ou peripécias. Os maiores trapezistas que conheci nunca saltaram. Se tenho outro conselho? O que achas que sou, uma locomotiva ou um jornaleiro? Honestamente, o que achas que sou? Que lhe darei algo que eu mesmo tive que buscar?

Pegue um espelho. Está pensando o que me ocorre agora como pensamento, mas nas falas se reproduz desordeiro? O que vê? É isso mesmo. Um indagador cretino contracenando com seu reflexo. Eu nunca fui bom com finais. E me ocorre agora, só agora, só agora...